A abadia de Grimbergen, na Bélgica (a 13 quilómetros da capital), já era conhecida por ter tido em tempos produção artesanal de cerveja cuja receita datava do século XII. Agora, a tradição será recuperada depois de ter sido descoberta a receita medieval nos arquivos da abadia, com os procedimentos e ingredientes originais; o plano é construir uma nova cervejaria no mosteiro, para começar a produzir edições limitadas (cerveja com 10,8% de álcool) no final de 2020. O projecto será financiado pela Carlsberg.

A abadia, edificada em 1128 e cuja insígnia é uma fénix e o mote latim “ardet nec consumitur” (“queimados, mas não destruídos” – por ter sido três vezes atingida por incêndios), foi saqueada pelas tropas francesas em 1795 e a sua cervejaria ficou destruída. Depois de se reconstruir grande parte do mosteiro, pensava-se que a receita e a cervejaria teriam ficado perdidas para sempre. Duzentos e vinte anos depois, o que salvou a tradição foram uns livros do século XII, com a descrição dos ingredientes e dos métodos de produção desta cerveja, como a utilização de lúpulo em vez de ervas aromáticas fermentadas. “Descobrimos que os monges estavam sempre a inovar, mudavam a receita de dez em dez anos”, disse o padre Karel Stautemas ao jornal britânico The Guardian.

“Já tínhamos os livros com as receitas antigas, mas ninguém as conseguia ler”, explicou o padre Karel Stautemas. “Estava tudo em latim antigo e neerlandês antigo. Então trouxemos voluntários e passámos horas nos livros e descobrimos listas de ingredientes das cervejas produzidas nos séculos passados, os lúpulos usados, o tipo de barris e de garrafas, e até uma lista das cervejas produzidas”, explicou. Mas a receita não é utilizada na íntegra: “Não me parece que as pessoas agora gostassem do sabor da cerveja feita na altura”. Marc-Antoine Sochon, perito da Carlsberg que será o mestre cervejeiro da bebida medieval, explica que antigamente “a cerveja não tinha grande sabor, era como pão líquido”.

“O fabrico de cerveja e a vida religiosa sempre andaram de mãos dadas”, afirmou o padre Stautemas à Reuters, um dos que vivem no mosteiro, considerando ser importante “esta herança e tradição” que sempre esteve ligada à vida na abadia de Grimbergen. Assim que concluir um curso de fabrico de cerveja, Stautemas será um dos funcionários (ao todo deverão ser cinco ou seis) da nova cervejaria. Mas estas não serão as únicas cervejas Grimbergen: na década de 1950, uma cerveja com o nome Grimbergen começou a ser comercializada pela fabricante de cerveja belga Maes, que propôs aos monges utilizar o nome e insígnia na sua “cerveja abadia”.

Fonte: Público

Dois séculos depois, monges descobrem receita original e produzem cerveja medieval

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